É possível que a literatura oriental seja ‘o mais precioso repositório de adágios e provérbios, como o é de fábulas e de contos populares,’ afirma João de Figueiredo[i] no prefácio à Enfiada de Anexins Goeses, obra bilíngue (concani-português), de Roque Bernardo Barreto Miranda.

Roque Bernardo Barreto Miranda (1872-1935)

Filho do grande literato Jacinto Caetano Barreto Miranda, de Margão, além de trabalhar como chefe da impressão da Imprensa Nacional, em Nova Goa (Pangim), colaborou na imprensa local com prosa e verso. De entre a sua obra poética, encontram-se Coisas sabidas (1923), Disparates em verso (s. d.), e ainda um e outro trabalho inédito.[ii]

Na Enfiada, vêm à luz 200 ditos regionais, que nas palavras de Barreto Miranda são ‘flores do folclore de Goa’. Recolheu-os, em primeira mão, na conversação da gente, traduzindo a maioria deles em duas versões, literal e livre, ambas transcritas mais adiante. Não se trata, pois, de provérbios, máximas ou sentenças, o que seria de sabor clássico, mas, simplesmente, de adágios, ditados, ou rifões, de sabor popular.

Dir-se-ia que esse trabalho prima pelo seu valor sociológico e poético. Uns anos antes, monsenhor Sebastião Rodolfo Dalgado publicara, pioneiramente, em Coimbra, Florilégio de provérbios concanis (1922), contendo 2177 provérbios. Mas havia, sem dúvida, espaço para mais gente na seara.[iii] Barreto Miranda publicou anexins, dos mais correntes, no Heraldo, diário panginense, porém, numa altura em que poucos teriam dado conta do serviço que estava a prestar à terra.

Ainda por cima, traduziu os adágios, primorosamente, em verso, pondo-os assim em pé de igualdade com a sabedoria comum dos povos e a literatura universal.

Ora, quanto à ortografia e pronunciação dos vocábulos concanis, transcrevemos a seguir, como informação de utilidade, e não menos de curiosidade, as palavras de Barreto Miranda:

‘A escrita do concani – cuja ortografia em caracteres romanos, por não estar ainda bem definida – foi feita, para facilitar o leitor, possivelmente, conforme a fonologia popular em voga.

‘Relativamente à pronunciação: por não haver no alfabeto romano fonemas com que se possam exprimir precisamente certas palavras concanis, servimos da geminação de letras – letras cacuminais – as quais têm de ser fortemente articuladas com a ponta da língua, para dar o som aproximadamente natural da pronúncia concani. E para fácil enunciação, devem as palavras pronunciar-se em sílabas separadas. Para exemplo: melyá – kaddlyar – dounddolyá – vaurtolyak – devem ler-se assim: me-l-y-á – kadd-ly-ar – do-un-ddo-ly-á – va-ur-to-ly-ak.[iv]

Não subscrevo de todo o sistema ortográfico seguido pelo estimado autor da Enfiada, limitando-me a observar que, quase um século após essa sua advertência, e apesar de, no enretanto, ter havido várias tentativas no sentido de uniformizar a ortografia e pronunciação da língua concani (sendo uma delas segundo o sistema Jonesiano, apresentada por monsenhor Dalgado), a situação continua no mesmo pé. Mas isso pouco retira o valor à Enfiada de Barreto Miranda.


Tradução literal | Tradução livre
Melyá bagór sorg melâ na.
Não se chega a ver
 o céu sem morrer.
Não se alcança qualquer bem ou ventura 
sem passar por trabalhos e amargura. 
Tondd aslyar vatt assá.
Quem boca tiver,
tem via que quer.
Chega para onde quiser,
no país desconhecido, 
quem sua língua souber.
Boreak guelyar fattir yetá.
Por ir alguém fazer o bem, 
mais das vezes o mal lhe advém.
Tenkdênn momv kaddlyar, tonddant poddâ na.
Nunca a boca saboreia
quando se quer apanhar,
com cambo, o mel da colmeia.
É melhor por si fazer,
p’ra, o que se deseja, obter. 
Dounddo’lyá fatrár pãyon dovorçó nay.
Não deixar nunca o pé assente
sobre uma pedra movediça,
(por se deslocar facilmente).
É sempre acto de imprudência
meter-se em negócio incerto
ou coisas de contingência.
Dongrá-vôylim zaddâm Dev ximptá.
As plantas dos oiteiros (desprezadas
p’la humanidade) são por Deus regadas.
Aos que não têm lar, nem pão, 
sempre a Providência toma
sob a sua protecção.
Dholé add, sounsar padd.
Fora da vista (e cuidado)
o mundo fica arruinado.
Quando o dono está ausente, 
as coisas, que lhe pertencem,
são roubadas livremente.
Muclyém zot vetá taxem, fattlém zot vetá.
A junta de bois de traseira
segue conforme anda a primeira.
Do que o de diante faz, 
segue o exemplo o de traz.                                            
Dek’lem moddém, ailém roddném.
O ensejo de encarar
o cadáver, fez chorar.
As ocasiões
provocam acções.    
Borém corchém ani fattir gueuchém.
Fazer o bem e afinal
 receber p’lo dorso o mal.

[i] Enfiada de Anexins Goeses, dos mais correntes, traduzidos em verso, de Roque Bernardo Barreto Miranda (Goa: Imprensa Nacional, 1931), p. VI.

[ii] Cf. “A Evolução do Jornalismo na Índia Portuguesa”, de António Maria da Cunha (in Índia Portuguesa, volume 2, Nova Goa: Imprensa Nacional, 1923); A Literatura Indo-Portuguesa, de Vimala Devi e Manuel de Seabra (Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1971); Dicionário de Literatura Goesa, volume 1, de Aleixo Manuel da Costa (Macau: Instituto Cultural de Macau e Fundação Oriente, s.d.); Dicionário de Goanidade, de Domingos José Soares Rebelo (Alcobaça, 2012). Embora o Dicionário de Literatura Goesa se refira a um inédito intitulado “Frutos sem sabor”, disse-me Jacinto Barreto Miranda, sobrinho do Poeta, que não consta nenhum manuscrito desse nome no espólio do tio.

[iii] Thomas Stephens (c.1549-1619), missionário jesuíta inglês residente em Goa, publicara alguns adágios goeses na sua Arte da Lingoa Canarim, os quais foram traduzidos livremente pelo orientalista J. H. da Cunha Rivara (1809-1879), na segunda edição dessa gramática por ele publicada, em 1857. Isso para não falar de conjuntos posteriores, traduzidos em português e em inglês, estes por V. P. Chavan (Konkani Proverbs, 1900); S. S. Talmaki (Konkani Proverbs and Idioms, 1932), António Pereira, jesuíta goês, (Konknni Oparichem Bhanddar, 1985), e, mais recentemente, por Edward de Lima (Konknni Oparincho Kox: A Book of Konkani Proverbs, 2017); ou ainda os publicados em outros lugares de expressão concani, tal como nos estados indianos de Karnataka e Kerala.

[iv] Enfiada, pp. X-XI.

(Publicado na Revista da Casa de Goa, Serie II, No. 17, Julho-Agosto 2022)