Era eu ainda menino quando ouvi da boca da Avó Leonor a história de Nossa Senhora de Fátima. Nessa altura, foi o enredo, ou seja, a descrição pastoral, que deveras me impressionou; e também o facto de a Mãe de Jesus ter pedido a recitação diária do Terço e que os maus se tornassem bons para poderem alcançar o Céu.

De vez em quando ia lendo umas publicações sobre Fátima que tínhamos na nossa biblioteca em casa – uma delas, Fátima, Altar do Mundo, de João Ameal. Atraía-me esse  fantástico subtítulo – “Altar do Mundo” – bem como as lindas fotografias a preto e branco.

Uma outra publicação que costumava folhear era o Souvenir publicado em Goa por ocasião do cinquentenário das Aparições de Fátima (1967). Tinha artigos da autoria de escritores goeses – inclusive hindus – escritos em português, inglês e concani.

Nesse opúsculo vi pela primeira vez uma foto memorável de que falava meu pai: a Imagem da Virgem Peregrina a atravessar o rio Mandovi, a caminho da Velha Cidade, no dorso dum gasolina que se apresentava em forma dum grande cisne branco fabricado por artistas goeses. E, desembarcando junto ao Arco dos Vice-reis, essa imagem seguiu em magno cortejo até o local onde iriam ser rezadas, simultaneamente, 153 missas, a representar as Ave-Marias do Rosário! Que imponente cena! Nessa visita que se realizou de 29 de Novembro a 12 de Dezembro de 1949 a Imagem percorreu o território de Goa.

Daí a vinte e cinco anos, ou seja, em 1974, foi anunciada uma outra visita da Imagem. Desta vez, houve grande polémica na imprensa local. Não me lembro qual foi o argumento principal; sei só que se tratava de um debate entre duas gerações de clérigos goeses. Porém, quando chegou a Imagem houve grande concorrência dos fiéis. Com os meus 9 anos de idade fiquei com esta dúvida: como é que podia haver duas opiniões sobre a visita da Mãe de Jesus?!

Entretanto, constituíam já uma tradição consagrada as chamadas procissões de velas, que se realizavam na capital, em Maio e Outubro. Era entoado um e outro cântico em português. Embora parecesse um simples ritual herdado a Portugal, para mim era esse país era o “povo escolhido” dos tempos modernos (já que o antigo não se portara bem!)

Também meu pai, de saudosa memória, sem nunca se esquecer do sentido mais amplo da mensagem de Fátima, parecia frisar o lado português do grande acontecimento que se tinha dado em Fátima, exprimia esse sentir no seu poema “Portugal e Fátima”, que veio publicado n’O Alcoa, de Alcobaça:

Portugal e Fátima
Primeira Grande Guerra… Só sangueira,
Luto e desolação por toda a Terra!…
Angustiada, aparece, pois, na Serra
A nossa Virgem Mãe numa azinheira

(Cova da Iria); e diz com emoção
que vão cessar as hostilidades
(é a bonança a seguir a tempestades).
Anima o mundo à sua reconstrução.

E a Portugal diz:- Eis que te darei
Dois jovens que guiarão nessa peleja:
Um, que traz veste da cor de cereja;
E o outro, de quem muito justamente d’rei:

Tem muito sal na fala e afasta o azar.–
E assim foi, pois: seguira-se uma era
De real prosperidade e paz sincera,
Por cerca de meio séc’lo, sem armar…

Tal como não há rosas sem espinhos,
Não podem faltar cravos nem cravinhos
Que perturbem a vida nacional
Neste sempre querido Portugal!

Mas, haja o que houver, disse a Senhora
de Fátima que é sua protectora
nata:- “Meu Coração, pois, triunfará”.
E, quem acreditar não poderá?

Em 1987, tive o ensejo de visitar Portugal. Fui a Fátima, onde vi peregrinos de joelhos; e uns a cantar e outros a chorar… Emocionante! Impressionou-me bem o recinto do Santuário e a vasta praça pública mas fiquei triste por ver uma intensa actividade comercial ao redor!

Entretanto, fui reflectindo sobre o facto de Fátima não ser um mero sítio ou história: os três pastorinhos eram afinal personagens ímpares no palco internacional e arautos da mensagem divina que merecia bem ser escutada pelo Planeta Terra.

Depois que voltei a Goa, em 1988, estive em contacto com a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, que tinha acabado de publicar o livro intitulado As Aparições e a Mensagem de Fátima nos manuscritos da Irmã Lúcia, de autoria de António Augusto Borelli Machado. Este livro teve depois uma edição inglesa, feita em Goa. Eram os anos do desmoronamento do Império Soviético e outros acontecimentos apocalípticos cuja explicação completa se encontrava na mensagem de Fátima.

Tornei-me ainda mais devoto da Senhora de Fátima. Mas enquanto eu fitava a sua dimensão universal, Nossa Senhora olhava, com carinho maternal, para a minha vida pessoal: ajustar-me-ia com a Isabel, nascida em 13 de Maio, e levando por isso os nomes Maria e Fátima!

Cinco anos depois, casámos nesse dia. No fim da missa do casamento a Isabel fez (e eu renovei) a Consagração a Nossa Senhora segundo o método de S. Luís Maria Grignion de Montfort!

Uma e outra pessoa, católica mas também supersticiosa, nos tinha recomendado não casar no dia 13, sexta-feira. Mas pusemo-nos, a Isabel e eu, incondicionalmente a favor dessa data.

Um ano e meio depois sucedeu-nos algo que essas pessoas devem ter tomado como plena justificação dos seus palpites. Nascia-nos um menino – Fernando – que, pouco depois, começou a ter problemas bastantes graves! Pensámos, porém, que Deus podia mandar uma prova dessas a qualquer pessoa; com que direito poderíamos ser uma excepção? O importante era Deus estar connosco, como realmente esteve, e continua a estar!

No hospital, onde passámos os primeiros três meses da vida do Fernando, cheguei a ler, com grande consolação e deleite espiritual, o livro Fatima, de William Thomas Walsh. Foi um dos poucos livros que pude ler durante o período da crise por que passámos, a Isabel e eu, junto com a família inteira.

Tomámos tudo isso como uma prova da nossa fé; e tínhamos já recebido a resposta a todas as dúvidas suscitadas no interim: era a Senhora de Fátima que nos vinha ajudar a encarar de forma sobrenatural a vida, esta nossa peregrinação na terra.

Fernando não se curou completamente mas sucedeu algo que a medicina não achava possível… Está estável, com uma alegria de viver, e é devoto de Nossa Senhora!

Uns anos depois nasceu-nos o Emmanuel, que leva o nome do Esposo de Maria Santíssima: José! E quando nasceu a Vera, uns dias após a morte da Vidente Lúcia, foi ela baptizada também com esse nome de luz.

Eis algumas facetas da nossa relação com a Mãe Celeste… E eis porque ainda nos fala ao coração aquela doce palavra Fátima.

(Em conversa com Cristina Arouca, em 2012)

Ver:

Fátima no Mundo, de Manuel Arouca e Cristina Arouca
Editora Ofício do Livro, 2016) 
https://www.amazon.com/F%C3%A1tima-Mundo-Portuguese-Manuel-Arouca/dp/9897414320)

Fátima e o Mundo, documentário, Ep. 611, Dezembro de 2016: Fátima e a Ásia e a Oceânia. 
https://www.rtp.pt/play/p2909/e263645/fatima-e-o-mundo