Goencheo Mhonn'neo | Adágios Goeses - 13

Segue a décima-terceira lista de adágios,[1] extraídos do livro Enfiada de Anexins Goeses, obra bilíngue (concani-português), de Roque Bernardo Barreto Miranda (1872-1935)[2].

Concani Tradução literal | Tradução livre

 

Casuló aplê chempêk manvotá.

Kazulo aple chempek manvota.

 

 

 

 

 

 

Errondd vaddolyar patti zatá?

Erondd vaddlear patti zata?

 

 

 

Fortunn vetush, dossai vetá.

Fortun vetoch, doxa-i veta.

 

O pirilampo

se desvanece

vendo a cauda

que resplandece. 

Um vaidoso, sendo esbelto,

fica com mais presunção,

todas as vezes que vê

a sua própria feição.

 

Por pular em crescimento,

a purgueira, ela serve

p’ra a trave de vigamento?

 

P’la estatura e corpulência

Do homem, não se regula

o seu saber e experiência.

 

Quando a alguém a sorte

Não olha e ampara,

também a vergonha

dele se separa.

[1] Cf. duo-décima lista, Revista da Casa de Goa, Série II, No. 37, novembro-dezembro de 2025, p. 46.

[2] Roque Bernardo Barreto Miranda, Enfiada de Anexins Goeses, dos mais correntes (Goa: Imprensa Nacional, 1931), com acrescentamento dos adágios na grafia moderna, pelo nosso editor associado Óscar de Noronha.

Publicado na Revista da Casa de Goa, Série II, No. 38, novembro-dezembro de 2025, p. 50.


Goencheo Mhonn'neo | Adágios Goeses - 12

Segue a duo-décima lista de adágios,[1] extraídos do livro Enfiada de Anexins Goeses, obra bilíngue (concani-português), de Roque Bernardo Barreto Miranda (1872-1935)[2].

Concani Tradução literal | Tradução livre

 

Vagachyá tonddantuló suttunn, xinvanchyá tonddant poddló.

Vagachea tonddantlo suttun, xinvachea tonddant poddlo.

 

 

Ximêr moddém.

Ximer moddem.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ghâr firtokúsh vanché firtat.

Ghor firtokuch vanxe firtat.

 

 

 

Escapando da boca

do tigre, livre e são,

caiu na de leão. 

 

Salvo do mal menor,

foi cair no maior.

 Colocar o cadáver no limite.

(Processo torto;

para se não saber a que paróquia

pertence o morto.)

Não decidir a questão;

estar entre dois partidos,

perplexo, em vacilação.

 

Quando, pelo aluimento

Se vira uma casa, vira-se

também o seu vigamento.

Na adversidade, até amigos

procedem como os inimigos.

[1] Cf. um-décima lista, Revista da Casa de Goa, Série II, No. 34, maio-junho de 2025, p. 52.

[2] Roque Bernardo Barreto Miranda, Enfiada de Anexins Goeses, dos mais correntes (Goa: Imprensa Nacional, 1931), com acrescentamento dos adágios na grafia moderna, pelo nosso editor associado Óscar de Noronha.

Publicado na Revista da Casa de Goa, Serie II, No. 37, Set-Out 2025, p. 46


Goencheo Mhonn'neo - IX | Adágios Goeses - IX

Segue uma nona lista de adágios,[1] extraídos do livro Enfiada de Anexins Goeses, obra bilíngue (concani-português), de Roque Bernardo Barreto Miranda (1872-1935)[2].

  1. Concani | 2. Tradução literal | 3. Tradução livre

1. Xelyá angar bibó. | Xellia angar bibo.

2. Sobre o corpo são,

suco de anacardo

(p’ra causticação).

3. Ter injusto sofrimento

ou pena, sem fundamento.

 

1. Venttó laslyar, vôll vhossó na. | Vennto laslear voll vochona.

2. Uma corda torcida

estando até queimada,

a sua torcedura

não fica desvincada.

3. Apesar de estar punido,

não fica ele corrigido.

 

1. Duddú nant taném tarir poiló bossunk zay. | Duddu nant tannem tarir poilo bosunk zai.

2. Numa barca de passagem,

deve meter-se primeiro

quando alguém, para pagar

o nauta, não tem dinheiro.

3. Quem não tiver protecção

deve ir sempre, antes de outros,

fazer sua petição.

 

[1] Cf. oitava lista, Revista da Casa de Goa, Série II, No. 29, julho-agosto de 2024, p. 51.

[2] Roque Bernardo Barreto Miranda, Enfiada de Anexins Goeses, dos mais correntes (Goa: Imprensa Nacional, 1931), com acrescentamento dos adágios na grafia moderna, pelo nosso editor associado Óscar de Noronha.

First published in Revista da Casa de Goa, Series II, Sep-Oct 2024, pp __


Goencheo Mhonn’neo - VIII | Adágios Goeses - VIII

Segue uma oitava lista de adágios,[1] extraídos do livro Enfiada de Anexins Goeses, obra bilíngue (concani-português), de Roque Bernardo Barreto Miranda (1872-1935)[2].

Concani | Tradução literal | Tradução livre

 

Unn dudatçó gôntt guilunk nuzó, ani bayrui galunk nuzó. | Hun dudhacho ghontt gillunk nozo, ani bhairui ghalunk nozo.

Um gole de leite quente,

(tomado sem reflectir,)

não se sabe se o deve

deitar fora ou engolir.

 

Há muitas vezes embaraços

que metem em tal situação,

que não se sabe, no momento,

como sair da entalação.

 

Variante

Quando alguém é dependente

de dois rivais, em questão,

fica indeciso p’ra dar

Sua franca opinião.

 

Kaddi báil ghovachi, gori báil povachi.[3] | Kalli bail ghovachi, gori bail povachi.

A mulher preta é

do esposo somente.

mas a mulher clara

é de toda a gente.

A mulher feia é só do homem,

com quem está desposada,

mas sendo a mulher bonita,

é por todos requestada.

-o-o-o-o-

[1] Cf. sétima lista, Revista da Casa de Goa, Série II, No. 27, março-abril de 2024, p. 47.

[2] Roque Bernardo Barreto Miranda, Enfiada de Anexins Goeses, dos mais correntes (Goa: Imprensa Nacional, 1931), com acrescentamento dos adágios na grafia moderna, pelo nosso editor associado Óscar de Noronha.

[3] ‘Povachi’ = do povo.

(In Revista da Casa de Goa, Serie II, No. 29, Julho-Agosto 2024, p. 51)


Goencheo Mhonn'neo - VII | Adágios Goeses - VII

Segue uma sétima lista de adágios,[1] extraídos do livro Enfiada de Anexins Goeses, obra bilíngue (concani-português), de Roque Bernardo Barreto Miranda (1872-1935)[2].

Concani | Tradução literal | Tradução livre

Dhazananchó sangat corsó nãy, ani coroddachyá ujyak chekuchém nãy. | Dha zannacho sangat korcho nhoi, ani koroddachea ujeak chekuchem nhoi.

Não tome todos como amigos,

(pode não dar bom fim,)

como também nunca se aqueça

ao fogo do capim.

Pantçuy bottâm sarquim nãy. | Panchui bottam sarkim nhoi.

Não tem igual dimensão

os cinco dedos da mão.

Toda a personalidade

não tem a mesma habilidade.

Sunyanchi chemp noliyênn ghalyar passunn, sarky zay na.| Suniachi chemp nollien ghalear pasun, sarki zaina.

O rabo de um cão

que é torto, se o ajeita,

pondo-o ainda num tubo,

nunca se endireita.

Torna-se impossível

corrigir quem de índole

é incorrigível.

-o-o-o-

[1] Cf. sexta lista, Revista da Casa de Goa, Série II, No. 26, janeiro-fevereiro de 2024, p. 43.

[2] Roque Bernardo Barreto Miranda, Enfiada de Anexins Goeses, dos mais correntes (Goa: Imprensa Nacional, 1931), com acrescentamento dos adágios na grafia moderna, pelo nosso editor associado Óscar de Noronha.

(Publicado na Revista da Casa de Goa, Série II, No. 27, março-abril de 2024, p. 47)


Goencheo Mhonn'neo - VI | Adágios Goeses - VI

Segue uma sexta lista de adágios,[1] extraídos do livro Enfiada de Anexins Goeses, obra bilíngue (concani-português), de Roque Bernardo Barreto Miranda (1872-1935)[2].

Concani | Tradução literal | Tradução livre*

 

Sodâm manalém cazar nãy. | Sodam manalem cazar nhoi.

Dia a dia ou semana,

não se realiza

o casamento da mana.

 

* Não se faz sempre o que se fez,

numa ocasião ou uma vez.

 

Gibhenn quelém, fattin guêtlém. | Jiben kelem, fattin ghetlem.

Pelo agravo praticado

p’la língua, sofreu o costado.

 

* Foi outrem o delinquente,

mas sofreu o inocente.

 

Kon tçôdd uddtá, ecdús tó buddtá. | Konn chodd uddta, ek dis to buddta.

Quem pulando vai,

um dia, enfim, cai.

 

* O atrevido sofre um dia

p’la sua muita ousadia.

 

Rag martá apnak, sôntôs martá peleak. | Rag marta apnnak, sontos marta peleak.

A ira mata ou faz mal

Ao próprio encolerizado,

e a al’gria magoa os outros

que invejam o afortunado.

-o-o-o-

[1] Cf. quinta lista, Revista da Casa de Goa, Série II, No. 25, novembro-dezembro de 2023, pp. 30-31.

[2] Roque Bernardo Barreto Miranda, Enfiada de Anexins Goeses, dos mais correntes (Goa: Imprensa Nacional, 1931), com acrescentamento dos adágios na grafia moderna, pelo nosso editor associado Óscar de Noronha.

(Publicado na Revista da Casa de Goa, Série II, No. 26, janeiro-fevereiro de 2024, p. 43)


Goencheo Mhonn'neo - V | Adágios Goeses - V

Segue uma quinta lista de adágios,[1] extraídos do livro Enfiada de Anexins Goeses, obra bilíngue (concani-português), de Roque Bernardo Barreto Miranda (1872-1935)[2].

Concani | Tradução literal | * Tradução livre

Jiuak suk, pottak duk. | Jivak sukh, pottak dukh.

Para a vida, quietação.

Para a barriga, inanição.

* Quem preguiça e não trabalha,

não ganha p’ra a vitualha.

Fonddachy maty fonddak. | Fonddachi mati fonddak.

A terra de uma cova

não chega para mais,

senão à mesma cova.

* Querer alguém aumentar

os bens ou a fruição,

além da capacidade,

é gastar o esforço em vão.

Borém zalyar noureá-ôclêchém, vaitt zalyar, raibareachém. | Borem zalear novrea-voklechem, vaitt zalear, raibareachem.

Se o consórcio for feliz,

deve-se o êxito fagueiro

aos noivos; sendo o contrário,

a culpa é do medianeiro.

Sambhar cabar zalyar, sacaçó vás vhossó na. | Sambar kabar zalear, sakacho vas voch’na.

Embora esteja esvasiado

o saco de condimentos,

ele há-de exalar o cheiro

de temperos e pimentos.

* Um homem embora esteja

hoje pobre, desditoso,

não perde o aprumo que teve

quando rico ou venturoso.

Vaitt chintit tém yetá ghârá, vhossó na xezará. | Vaitt chintit tem ieta ghora, vochona xez’ra.

Quem quer mal a outrem, ele próprio o alcança,

E não sofre nunca a vizinhança.

* O mal que se quere à gente,

sofre-o o próprio malquerente.

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[1] Cf. quarta lista, Revista da Casa de Goa, Série II, No. 24, setembro-outubro de 2023, pp. 45-46

[2] Roque Bernardo Barreto Miranda, Enfiada de Anexins Goeses, dos mais correntes (Goa: Imprensa Nacional, 1931), com acrescentamento dos adágios na grafia moderna, pelo nosso editor associado Óscar de Noronha.

(Publicado na Revista da Casa de Goa, Serie II, No. 25, nov-dez 2023, pp. __)


Goencheo Mhonn'neo - IV | Adágios Goeses - IV

Segue uma quarta lista de adágios,[1] extraídos do livro Enfiada de Anexins Goeses, obra bilíngue (concani-português), de Roque Bernardo Barreto Miranda (1872-1935)[2].

Tradução literal | Tradução livre

Fôttquiryachém nãy sot, ani pav’sachém nãy vot. | Fottkireachem nhoi sot, ani pavsachem nhoi vot.

Não se deve fiar num homem mentiroso, como na luz do sol, no tempo invernoso.

Donn hoddyen’ar pãyem dovorlyar doriyant poddta. | Don hoddeamni paim dovorlear doriant poddta.

Aquele que firmar os pés sobre dois barcos, mergulha-se no mar.

Quem faz dois negócios opostos

ou claramente incompatíveis,

expõe-se a desastre e desgostos.

Natçunk nenom teká, angonn vankddém. | Nachunk nennom taka angonn vankddem.

A quem não sabe dançar, co’arte e geito,

o terreiro é que está torto, imperfeito.

Sempre um ignorante,

que tem petulância,

lança no outro as culpas

da sua ignorância.

Bhirant assá, punn lâz nam. | Bhirant asa, punn loz na.

Tem medo (que seja punido)

mas não tem vergonha (o atrevido).

Cat mely zalyar, zat melâ na. | Kat mell’li zalear, zat mellna.

Por se tornar a tez escura,

a casta não se desnatura.

A procedência de alguém

não se aquilata p’la cor

da tez que a pessoa tem.

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[1] Cf. terceira lista, Revista da Casa de Goa, Série II, No. 21, março-abril 2023, pp. 59-62

[2] Roque Bernardo Barreto Miranda, Enfiada de Anexins Goeses, dos mais correntes (Goa: Imprensa Nacional, 1931), com acrescentamento dos adágios na grafia moderna, pelo nosso editor associado Óscar de Noronha.

Publicado na Revista da Casa de Goa, Serie II, Set-Out 2023, No. 24, pp. 45-46


Goencheo Mhonn'neo - III | Adágios Goeses - III

Damos aqui uma terceira lista de adágios,[1] extraídos do livro Enfiada de Anexins Goeses, obra bilíngue (concani-português), de Roque Bernardo Barreto Miranda (1872-1935).[2] E desta vez, transcrevemos cada um deles também na corrente grafia romana, embora ainda não estandardizada, da língua concani.

Salta logo à vista, na grafia moderna, o desaparecimento dos sinais diacríticos, a saber, os acentos agudo, grave e circunflexo, o til, a cedilha, o apóstrofo e o hífen, que haviam sido introduzidos por influência do português, durante séculos a língua oficial de Goa. Há quem diga que a romanização da escrita causou a eliminação ou deformação dos sons originais do idioma concani.[3] Mas isso, a ser verdade, não teria sido por inépcia do alfabeto romano que, por meio de certas convenções, bem podia dar conta do recado; mas simplesmente por falta de esforços concertados no sentido de padronizar a escrita.[4]

Será que não houve alguma eliminação ou deformação dos sons quando, por compulsões históricas, o concani – escrito originariamente em Goykanadi, alfabeto em desuso há seculos – passara a empregar os alfabetos devanagárico, canarês, malaiala e persa-árabe? Ora, no século XVI, perante esse mare magnum gráfico e a concomitante falta de meios de impressão, o alfabeto romano veio mesmo a calhar, e, ao longo do tempo, ajudou a engrossar a literatura profana e religiosa do concani, língua esta que, por estranho que pareça, havia os que a queriam somente como língua falada[5] e não literária.

Urge notar que perante o papel que a romanização da escrita teve na preservação e promoção da própria língua, é insignificante a alegada eliminação ou deformação dos sons que ela teria causado. Foram os utentes do concani romanizado, na sua esmagadora maioria católicos, que a usaram como língua literária, enquanto outros, por sinal, os hindus, tiveram unicamente o marata como sua língua literária, e só muito mais tarde, ou seja, nos anos sessenta do século XX, vieram a patrocinar o concani; e o fizeram usando caracteres devanagáricos, tal como em marata e hindi, de entre outras línguas indianas.

Em todo caso, deixemos aos peritos determinar se o que modernamente está assente na matéria da fonética e ortografia do concani se acha completamente livre da influência de idiomas dominantes, tais como o inglês e o marata. Aliás, não cremos que exista um sistema de grafia perfeito e igual para todos os tempos; o dinamismo linguístico não o permite.

Passando, em seguida, para o vocabulário dos utentes do concani romanizado: vê-se, no texto ora em consideração, que, sem aferrado purismo, em concani são usados muitos vocábulos portugueses (anjo; festa; padre-vigário; presidente), e vice-versa (betle/bétele; ceira), sendo esse fenómeno osmótico muito próprio de línguas vivas. Assim, longe de se corromperem, ambas as línguas se enriqueceram.

Por sua vez, Barreto Miranda, livre de preconceitos, valorizou não só a sabedoria do povo como também a língua da sua terra natal.

Concani | Tradução literal | Tradução livre

Sarquém anjyachém, cornyô devtçarachyô. | Sarkem anjachem; kornneo devcharacheo.

São de anjo as feições

e de demo as acções.

Uma lindíssima aparência

encobre, às vezes, má essência.

Pann’velichyá nibann moxingak udâk. | Panvelichea niban moxingak udok.

A água com que a betle[6]

(trepadeira) é regada,

apanha-a o moringueiro,

ao qual está enroscada.

P’lo benefício feito aos protegidos,

ficam, às vezes, outros atingidos.

Muy zahunn sakor khavunk zay. | Mui zavun sakhor khavunk zai.

Qual formiga tem de ser,

Quem queira açúcar comer.

Tem que ser, muito pequeno

e humilde, como formiga,

se quer viver bem, sereno.

Fest cortá ganv, Padre-vigarachém nanv. | Fest korta ganv, Padri-vigarachem nanv.

Fest cortá ganv, pirjentichém[7] nanv. | Fest korta ganv, presidentichem nanv.

É freguesia que festeja,

mas quem leva a glória da festa

é padre-vigário da igreja.

Melôlê gayêk bará xér dud. | Melole gaiek bara xer dudh.

A vaca que morreu,

doze ceiras[8] de leite

regularmente deu.

Depois da morte de alguém,

dizem dele sempre o bem.

Vhodd gharak poklé vanché. | Vhodd gharak pokle vanxe.

A casa tem o aspecto apalaçado,

mas ocos são os caibros do telhado.

A casa tem a aparência

de abastança, mas as arcas

não têm a suficiência.

Hatachim canknâm tçouchak arsó zay? | Hatachim kanknnam pollovpak arso zai?

Porventura há precisão

de espelho, para alguém ver

as joias da sua mão?

Não há nenhuma utilidade

servir-se de coisas ou meios,

de que não há necessidade.

Xettiló bôil baynt poddló, ganv ailó | Xettilo boil baint poddlo, ganv ailo

xêtt poddló, konui na ailó.                | Xett poddlo, konnui na ailo.

Caiu no poço o boi dum mercador

a aldeia inteira lá compareceu.

Tendo, porém, caído o mercador

ninguém, pessoa alguma, apareceu.

Variante:

Xettitçó bôil mortá zalear, sogló ganv | Xetticho boil morta zalear, soglo ganv

pautá, xêtt melyar konui ye na.           |  pavta, xett melear konnui ie na.

Se morre um boi dum influente,

toda a aldeia comparece.

mas, em morrendo o influente,

nenhuma pessoa aparece.

Ek taltann taliyô vazâ nãy. | Ek talltan talleo vazonant.

Uma mão só, palmas

não pode bater,

sempre de outra mão,

tem que depender.

Há actos que não podem

ser postos em acção,

sem haver dependência

ou cooperação.

Tus kanddunn hatak fôdd. | Tus kanddun hatak fodd.

Pilando casca de arroz,

nada se adquiriu, senão

as empolas para mão.

De tanto trabalho feito,

não se auferiu proveito.


[1] Cf. Revista da Casa de Goa, Série II, No. 18, Set-Out 2022, pp. 33-34

[2] Roque Bernardo Barreto Miranda, Enfiada de Anexins Goeses, dos mais correntes (Goa: Imprensa Nacional, 1931)

[3] ManoharRai SarDessai, A History of Konkani Literature: from 1500 to 1992 (New Delhi: Sahitya Akademi, 2000), p. 22.

[4] “… representa os sons melhor do que os alfabetos indianos não modificados; e não implica nem com a música nem com os vocábulos.” (Mariano Saldanha, “A Língua Concani: as suas Conferências e a acção portuguesa na sua cultura”, in Boletim do Instituto Vasco da Gama, No. 71, p. 28)

[5] Não é de admitir que se tenha perdido toda a literatura em concani nas fogueiras da Inquisição, pois encontrar-se-ia algo desse registo pelo menos fora da jurisdição desse temido Tribunal.

[6] O mesmo que bétele, planta aromática (Piper betle) cultivada na Ásia.

[7] Corruptela de “presidente”.

[8] Antiga medida de peso, na Índia.

Publicado na Revista da Casa de Goa, Série II, No. 21, Mar-Abr 2023, pp. 59-62

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Goencheo Mhonn'neo - II | Adágios Goeses - II

Neste número, em continuação do anterior (Revista da Casa de Goa, 2022, II Série, No. 17, pp. 35-38), divulgamos mais adágios seleccionados e traduzidos, do valioso repositório bilíngue (concani-português), Enfiada de Anexins Goeses, da autoria de Roque Bernardo Barreto Miranda.

Entretanto, no texto que segue, note-se seis vocábulos portugueses concanizados: Entrudo; Páscoa; festa; cruz; experimentar; letrado. É que o português e o concani mutuamente se influenciaram.

Tradução literal Tradução livre
Moddvol’achém moddém bâ’yr kaddlyâ bagôr, kãy colo’na. Só quando vai-se enterrar

um mainato, se avalia

se era ou não do próprio, a roupa

com que em vida se vestia.

Há oportunidades

que mostram realidades.

 

Roddtyâ dadlyak ani hanstê baylek patiyevum na ye.     Do homem a chorar

e da mulher que ri,

é bom desconfiar.

Anddir assá cheddó, sodunk bountá sogló vaddó. Tendo o filho à ilharga, vagueia

a buscá-lo por toda a aldeia.

 

Quem não anda com tento e atenção,

não nota até no que está junto à mão.

Sat’tê fuddém xahaneponn kityak upcara na. Ante o poder ou pressão,

não prevalece a razão.

Mas khailolém Intrudak, dênk ayló Pascanchyá-festak. Comera carne

Na ocasião de Carnaval

E teve arrôto

No dia da Festa Pascal.

 

Atribuir, sem razão,

o resultado ou efeito

a uma causa de ficção.

Variante

A coisa passou outr’ora,

e vem tratar dela agora.

Dilolém naká, sanddlolém zay. Não quer quando é of’recido,

E quer, quando está perdido.

Quando tem, não aproveita,

rejeita a utilidade,

e quando há falta, sente

a sua necessidade.

Anthurun pormaném pãyem sôddche. Conforme a cama

que possuir

estenda os pés

para dormir.

Para governar-se sempre bem,

Tem que viver-se co’ o que tem.

Moddlolyá kursák kon mann di na. A cruz, que se vê quebrada

por ninguém é respeitada.

 

A quem deixou de ser rico ou potente,

festas e adulações não faz a gente.

Goroz zaly, voiz meló. Conseguido o objectivo

morreu o facultativo.

 

Obtido o favor

já não mais se lembram

do seu benfeitor.

Experimentar zalyá sivay, letrad zay na. Sem experiência ter

letrado não chega ser.

 

É sempre p’la observação

Ou prática, que das coisas

Se tem a melhor noção.

(Publicado na Revista da Casa de Goa, Série II, No. 18, Setembro-Outubro de 2022, pp. 33-34)