Professor Nuno Grancho

Diu, Tranquebar e Serampore

Óscar de Noronha (ON): Quando «reafirma» Diu como uma cidade colonial portuguesa — pois «nunca houve um lugar como Diu na história da presença colonial europeia na Índia» — o que é que faz desta cidade um caso de estudo tão excepcional? Acha comparável o caso de Goa ao de Diu?

Nuno Grancho (NG): Diu é excecional porque não pode ser lida como uma simples réplica da “cidade europeia” transplantada para a Índia. O que encontramos em Diu é uma situação histórica e espacial muito singular: uma soberania estratificada, uma longa duração colonial atravessada por interdependências locais e uma relação muito particular entre arquitectura, urbanismo, representação e poder. É precisamente essa combinação, entre presença portuguesa, proximidade do Islão, agência gujarati, formas católicas e culturas materiais transnacionais, que faz de Diu um laboratório privilegiado para pensar a cidade colonial para além dos modelos binários habituais “ocidental/não ocidental”. É por isso que digo que Diu obriga a rever pressupostos historiográficos muito consolidados.

Quanto a Goa, diria que é comparável apenas parcialmente. Goa é, sem dúvida, o lugar de eleição e de maior relevância para compreender a experiência colonial portuguesa na Índia e a sua cultura material, seja a arquitectura seja o urbanismo (como diria o nosso querido Paulo Varela Gomes). Mas a sua escala, centralidade administrativa e história urbana são muito diferentes das de Diu; por isso, embora haja pontos de contacto, Diu obriga-nos a rever categorias específicas que Goa, pela própria amplitude, tende, por vezes, a estabilizar.

ON:  De que forma a cultura teria moldado as práticas coloniais dos portugueses em Goa, Damão e Diu e as dos dinamarqueses em Tranquebar e Serampore?

NG: A cultura moldou essas práticas de modo decisivo, porque o colonialismo nunca foi apenas um sistema político ou militar: foi também uma forma de tradução, adaptação e negociação. Em Goa, Damão e Diu, a presença portuguesa articulou-se com tradições locais, materiais, usos sociais e repertórios religiosos que produziram soluções híbridas, nem totalmente europeias nem simplesmente “indígenas”.

No caso colonial dinamarquês, em Tranquebar, no Tamil Nadu, e em Serampore, em Bengala, a escala mais limitada do seu projecto colonial (que nem sequer foi imperial, ao contrário do caso português) e a dependência de mediações locais também geraram formas específicas de negociação cultural, visíveis na arquitectura, nos modos de habitar e nas relações entre o espaço doméstico, a missão, o comércio e a administração.

Em ambos os casos, a cultura não é um pano de fundo: é uma força ativa que condiciona a forma colonial e, ao mesmo tempo, expõe os limites do poder imperial. Em ambas as presenças coloniais, a arquitectura e o urbanismo resultam sempre de contacto, tradução e acomodação, e não apenas de dominação.

 A privacidade

ON: No seu livro A History of Privacy in Danish and Indian Architecture: Urbanism of Colonialism, a ser editado ainda este ano pela Routledge, como aborda o conceito e a prática da privacidade na arquitectura colonial dinamarquesa e portuguesa na Índia?

NG: No meu próximo livro A History of Privacy in Danish and Indian Architecture: Urbanism of Colonialism, a privacidade é tratada não como uma categoria universal e estável, mas como uma construção histórica, espacial e relacional. Interessa-me perceber como a arquitectura e o urbanismo produzem privacidade. Isto é, graus de retirada, separação, visibilidade e acesso, e como esses dispositivos variam entre contextos metropolitanos e coloniais em arquitectura e urbanismo.

No caso colonial dinamarquês, analiso sobretudo a forma como a privacidade se articula com a habitação, com a organização do interior doméstico, com a cultura arquitectónica e com a cultura urbana em ambiente colonial, mostrando que a distinção entre público e privado é sempre negociada e nunca puramente formal.

Mesmo quando comparo com o universo português, o meu foco está sempre na lógica dinamarquesa, mas, em ambos os casos, a questão central é a mesma: como é que a arquitectura organiza relações sociais, hierarquias e limites do corpo no espaço?

ON: De que maneira continuam as histórias coloniais da privacidade a influenciar as concepções contemporâneas de habitação urbana na Índia?

NG: Essas histórias coloniais da privacidade permanecem presentes porque muitos dos modelos contemporâneos de habitar ainda pressupõem e reproduzem dicotomias herdadas do período colonial: entre família e rua, interior e exterior, intimidade e exposição, segurança e acesso. Tais categorias não desapareceram com a descolonização. Apenas, foram reconfiguradas e continuam a informar o urbanismo, a legislação, o imaginário urbano e o imaginário arquitectónico.

Na Índia contemporânea, isso torna-se visível tanto em soluções voltadas às classes privilegiadas quanto em políticas de ordenamento do território que privilegiam certas formas de domesticidade e marginalizam outras. A história colonial da privacidade ajuda-nos, portanto, a perceber que a habitação não é apenas um problema técnico, mas também uma gramática social e política. O interesse crítico está em mostrar que o “privado” urbano moderno tem uma genealogia e que essa genealogia inclui relações coloniais de poder, exclusão e disciplina espacial.

Presença portuguesa

ON:  Como poderia a camada arquitectónica indo-portuguesa de Bombaim dos séculos XVI a XVIII inspirar um planeamento urbano mais sustentável e socialmente resiliente?

NG: A camada portuguesa de Bombaim mostra que a cidade pode ser pensada como um processo acumulativo, adaptativo e relacional, e não apenas como produto de ruptura. Essa arquitectura ensina-nos o valor da adaptação climática, do uso inteligente de materiais locais, da porosidade espacial e da negociação entre as escalas domésticas, comunitárias e urbanas.

Num tempo em que a sustentabilidade é frequentemente reduzida à tecnologia, a lição mais importante poderá ser outra: a de que a resiliência urbana depende também de sociabilidades densas, de formas de vizinhança e de soluções arquitectónicas capazes de responder a múltiplos contextos. Nesse sentido e parafraseando Rahul Mehrotra, uma grande influência há muito tempo no meu trabalho, Bombaim oferece um repertório histórico útil para pensar um urbanismo menos homogéneo e mais atento à diversidade de usos, ritmos e pertenças.

ON: Na qualidade de professor visitante na Universidade de Brown, no semestre da primavera de 2027, como pretende abordar o tema «Espaços de contacto: arquitectura, colonialismo e descolonização no mundo de língua portuguesa»?

NG: Pretendo abordar o tema a partir de uma perspectiva comparativa e descentrada, tomando a arquitectura e o urbanismo como lentes para ler o colonialismo, a pós-colonialidade e a decolonização no mundo lusófono. O curso será estruturado em torno de casos e debates que cruzam Portugal, Brasil, África e Ásia, de modo a mostrar como os espaços de contacto produzem simultaneamente dominação, negociação e resistência.

A ideia é trabalhar a história da arquitectura e do urbanismo não como um campo fechado, mas como um espaço de interrogação sobre raça, migração, género, extração, memória e agência subalterna.

Na Universidade de Brown, quero também estimular os alunos a leituras cruzadas entre arquitectura, história cultural e estudos pós-coloniais, sublinhando que escrever sobre espaço implica sempre escrever sobre poder.

Perda e ganho

ON: O pensamento decolonial na Índia em geral e em Goa, Damão e Diu em particular não conduzirá afinal à perda do património colonial arquitectónico e urbano? Como equilibrar esses dois aspectos?

NG: Não creio que o pensamento decolonial implique uma “perda” do património colonial arquitectónico e do património colonial urbano. O que faz é deslocar a pergunta e o foco da análise: em vez de tratar o património colonial arquitectónico e o património colonial urbano como valores intocáveis, convida-nos a perguntar quais memórias preservam, quais violências ocultam e quem beneficia da sua consagração.

Equilibrar estes aspetos significa preservar criticamente, isto é, conservar os objectos, as formas, a arquitectura e as cidades sem tornar naturais e incontestáveis as hierarquias históricas que os produziram.

A verdadeira questão não é entre destruir e manter, mas entre celebrar sem mediação e interpretar com rigor. Uma abordagem decolonial permite, precisamente, proteger o património colonial arquitectónico e o património colonial urbano enquanto o reinscreve numa história mais justa e plural.

ON: Tendo em conta as complexidades do estudo da Ásia pós-colonial, que conselho daria aos jovens investigadores que desejem seguir uma carreira académica?

NG: Diria, antes de mais, que desenvolvam uma sólida base interdisciplinar: história, teoria, análise de desenho, leitura de fontes, trabalho de arquivo, trabalho de campo no sentido etnográfico e arquitectónico e, sempre que possível, conhecimento das línguas relevantes para o estudo. A investigação sobre a Ásia pós-colonial exige precisão conceptual e sensibilidade histórica, pois os objectos de estudo são quase sempre sobrepostos, contestados e carregados de cargas políticas.

Também aconselharia paciência intelectual e humildade metodológica. É importante evitar explicações demasiado rápidas e categorias demasiado rígidas; muitas vezes, o mais produtivo é aceitar a complexidade e trabalhar com ela.

Por fim, diria que vale a pena escolher temas que realmente exijam tempo, comparação e contraste, e atenção ao detalhe — “o diabo está nos detalhes” — porque é aí que a investigação académica ganha densidade, originalidade e relevância.

(Publicado na Revista da Casa de Goa, Serie II, No. 40, pp 46-51)