No Evangelho (Mt 22, 34-40), Jesus responde aos seus adversários. Tinha Ele acabado de silenciar os Saduceus sobre a questão da Ressurreição dos mortos quando foi atacado pelos Fariseus. Estes queriam que Ele se pronunciasse sobre o «Grande Mandamento da Lei». Jesus atribui igual importância aos dois mandamentos conhecidos no Antigo Testamento e resume neles toda a essência da lei. Amar a Deus com todo o nosso coração, mente e alma é o primeiro e grande mandamento, diz Ele, e, pelo segundo, que é semelhante a este, devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos.

Mas quem é o nosso «próximo»? Diz-nos a Parábola do Bom Samaritano que se trata de qualquer pessoa necessitada. Aliás, o espírito materialista leva-nos a pensar logo no dinheiro como a necessidade primordial, mas não é bem assim. Muitas vezes, esse próximo só espera o nosso amor, o nosso tempo, às vezes uma palavrinha ou alguém que o escute. O amor pode nem sequer exigir a nossa presença física; às vezes, basta um telefonema, uma mensagem no WhatsApp, um pensamento reconfortante. É claro que nunca saberemos de antemão a quem somos chamados a servir, quando e como. Mas é imprescindível servir: aqueles a quem servimos são o nosso próximo, e o serviço é a expressão do nosso amor.

Mas, afinal, o que é o amor? Disse alguém que «o amor é a coisa mais bela que se pode ter, a mais difícil de conquistar e a mais dolorosa de perder»; mas, longe de o definir, isso faz com que o amor pareça indescritível. Por isso, vejamos como os atributos do amor (1 Coríntios 13:4-7) o tornam palpável: «O amor é paciente; o amor é bondoso; o amor não inveja, não se vangloria, não se ensoberbece, não é indelicado. Não insiste no seu próprio modo de agir; não é irritável; não guarda rancor; não se regozija com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. Tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo suporta».

Concreto, mas nem por isso definido. Isso porque o amor é multifacetado, por vezes muito mal compreendido e até transformado em clichê. Debruçaram-se sobre esse inesgotável tema vários pensadores católicos. C. S. Lewis, no seu livro Os Quatro Amores, distingue entre Afeição, Amizade, Eros e Caridade, mostrando como um se funde com o outro e pode até transformar-se nesse outro amor. Frisa ainda que os primeiros três — os amores humanos — podem viciar-se se não forem acompanhados da graça purificadora do amor divino, a Caridade. E, como disse Santo Inácio, «o amor manifesta-se mais nas obras do que nas palavras».

Compreendemos o amor de forma muito real através da Primeira Leitura (Ex 22, 21-27), na qual Deus nos proíbe de prejudicar ou oprimir um estrangeiro, de afligir uma viúva ou um órfão e de atormentar um pobre. Estas são personae miserabiles — pessoas em situações sociais, económicas e jurídicas difíceis. Aliviar o seu sofrimento é uma obra de misericórdia de que fala o Catecismo: «As obras de misericórdia são acções caritativas pelas quais socorremos o nosso próximo nas suas necessidades corporais e espirituais. Instruir, aconselhar, consolar, confortar, são obras de misericórdia espirituais, como perdoar e suportar com paciência. As obras de misericórdia corporais consistem nomeadamente em dar de comer a quem tem fome, albergou aos sem-abrigo, vestir os nus, visitar os doentes e os presos, e enterrar os mortos. Entre estes gestos, a esmola dada aos pobres é um dos principais testemunhos da caridade fraterna e também uma prática de justiça que agrada a Deus». (Cf. Catecismo da Igreja Católica, # 2447)

A civilização cristã cresceu baseada nesses ensinamentos sublimes e, ao longo dos séculos, atingiu um equilíbrio saudável entre o corpo e o espírito. Infelizmente, com a ascensão avassaladora do modernismo ateu, parece que algumas pessoas se cansaram dos ensinamentos que outrora as nutriram. A consequência dessa degradação está bem diante dos nossos olhos. E com a recente abertura das portas da Europa a um afluxo maciço (refugiados, requerentes de asilo, migrantes), alguns deles declaradamente inimigos espirituais da civilização cristã (ou do que resta dela) – e demonstraram-no incendiando igrejas – será que não precisamos de reavaliar se as necessidades físicas dos vizinhos são mais importantes do que o bem-estar espiritual das nossas famílias? É verdade que o samaritano socorreu um judeu (historicamente, um inimigo religioso e cultural do seu povo) – mas nada do que fez pôs a risco a saúde e a segurança colectiva da sua comunidade…. Não será que a caridade começa por casa… em nós mesmos? Escusado será dizer que os cristãos, antes de mais, têm de levar a sério a sua religião e costumes.

São Paulo preocupava-se com a saúde espiritual do seu povo. Na Segunda Leitura (1 Ts 1, 5-10), elogia vivamente o exemplo que os tessalonicenses deram aos crentes da Macedónia e da Acaia. A Palavra de Deus ressoava através deles como trombetas e a sua fé divulgou-se por toda a parte. Deus era o seu bem supremo, de onde brotava o bem do próximo. Por isso, o Apóstolo das Gentes regozija-se ao constatar como eles se converteram dos ídolos a Deus, «para servir ao Deus vivo e verdadeiro e aguardar que venha dos Céus o Seu Filho Jesus, que Ele ressuscitou dos mortos. E é Jesus que nos livra do temível julgamento que há-de vir».

Hoje em dia, será que, enquanto ansiamos por amar a Deus, ainda oramos para que os nossos protegidos venham a amar e adorar o Deus Verdadeiro? A vida do espírito é mais importante do que a vida do corpo ou da carne. O nosso dia-a-dia tem a ver com o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o certo e o errado. A guerra espiritual é, portanto, uma realidade que não podemos ignorar.

Especialmente no contexto do «cavalo de Tróia» que é a migração para os países cristãos, será lícito permitir que os migrantes minem os alicerces da civilização crista? Reflictamos: até que ponto os inimigos do Cristianismo podem ser considerados o nosso «próximo», sem que a isso falsamente chamemos «amor»?

Não será que o Ocidente – aliás, a própria Igreja Católica – está a sacrificar o seu corpo e alma em nome de uma tolerância puramente material? Não esqueçamos que o nosso dever primário é de amar a Deus acima de todas as coisas… e o nosso próximo – por amor a Deus...