Labutando na Vinha
A imagem da vinha é de facto cativante. Aliás, desde tempos imemoriais, profeta após profeta tem recorrido a essa encantadora característica da paisagem de Israel para transmitir uma mensagem cheia de significado. Sendo a uva um produto agrícola que desempenha um papel importante na economia, na sociedade e até nas tradições da fé judaica e, mais tarde, também cristã, não é de admirar que a Bíblia esteja repleta de parábolas relacionadas com a vinha.
Os comentadores bíblicos afirmam que uma das utilizações mais conhecidas do símbolo da vinha no Antigo Testamento ocorre em Isaías, cujo cerne é apresentado na Primeira Leitura (Is 5, 1-7): «A vinha do Senhor é a Casa de Israel». Aqui, Isaías recorda como o proprietário (que representa Deus) cuidou ternamente da sua vinha (o Seu povo, Israel). E, no entanto, como é que a vinha respondeu? Produzindo uvas azedas (comportamento indisciplinado ou pecado). É perfeitamente natural que o proprietário destruísse tais plantações sem valor — claramente simbólicas da retribuição pelo comportamento pecaminoso dos seres humanos.
Historicamente, a retribuição a que Isaías aludiu foi o ataque militar assírio que o reino do sul, Judá, antecipava, tal como o reino do norte de Israel sofrera anteriormente. O argumento do profeta era que Deus tinha castigado Israel pela sua infidelidade, e que Judá poderia muito bem evitar a sua parte de problemas se mudasse os seus caminhos, seguindo rigorosamente a lei de Deus. No entanto, Isaías não se mostra assim tão optimista, pois Deus outrora aguardava justiça, mas testemunhou derramamento de sangue; esperava pela justiça e, infelizmente, só houve gritos de horror.
A parábola de Jesus no Evangelho (Mt 21, 33-43) recorre ao simbolismo da vinha com um elemento humano mais palpável: substitui as uvas azedas por lavradores rebeldes. Uma vez que espancaram, apedrejaram, maltrataram e mataram os servos do proprietário, e até mesmo o seu filho — todos os quais ele tinha enviado, em rápida sucessão —, ele condena aqueles miseráveis a uma morte terrível e arrenda a vinha a outros lavradores que lhe darão os frutos na época certa.
Que significado tão profundo! Embora o proprietário aqui ainda simbolize Deus e a vinha o Seu povo, Israel, a parte sinistra da cena é que os lavradores representam os oficiais e as autoridades religiosas a quem foram confiadas as almas. Têm sido eles administradores fiáveis dos bens de Deus? O filho aqui referido é o Filho de Deus, Jesus Cristo Nosso Senhor. Será que Israel O respeitou? Não; pegaram n’Ele, que era o herdeiro, expulsaram-no da vinha e mataram-no. E hoje, que fazemos nós? Continuamos a fazer o mesmo sempre que O rejeitamos e pecamos.
Embora muitos tenham abraçado a fé cristã, nem todos permaneceram fiéis. Assim, depois de Israel ter rejeitado Jesus, a fé passou para o Ocidente, onde floresceu durante séculos, cumprindo as palavras de Nosso Senhor e Mestre: «O reino de Deus vai ser-vos tirado e dado a um povo que lhe produza os frutos». Mas, dai a séculos, também essa parte do mundo, depois de ter colhido os frutos da civilização cristã, esqueceu-se, de certo modo, de carregar a velha e áspera Cruz de Cristo. Com uma riqueza cada vez maior e uma confiança mal colocada, o Ocidente, lenta mas seguramente, baixou a guarda e colocou a sua fé cristã em segundo plano.
No nosso contexto moderno, o consumismo e o individualismo tornaram-se as novas «uvas azedas», sufocando a natureza comunitária e sacrificial do Evangelho. E o mais preocupante ainda é o facto de, como afirmou o Papa Paulo VI, já em 1972, que, «por alguma fenda, a fumaça de Satanás entrou na Igreja de Deus».
Jesus é aquela pedra rejeitada que Deus destinou a ser a pedra angular da salvação: «A pedra que os construtores rejeitaram é que veio a tornar-se pedra angular. Foi esta a obra do Senhor, que é admirável aos nossos olhos». Actualmente, a maior esperança provém dos continentes asiático e africano. Por exemplo, num país soberano nascente como Timor-Leste, o povo escolheu a fé católica, e esta tem vindo a crescer cada vez mais (de 20% a 98%). Por seu lado, várias nações africanas têm estado entre os mais firmes defensores da moral e da disciplina católicas, o que se torna evidente na sua corajosa rejeição da homossexualidade, do transgenerismo, do divórcio, da ordenação de mulheres e assim por diante. Os seus cardeais afirmam-se no Vaticano, e o seu povo — com o seu inegável zelo religioso, a sua resiliência perante a pobreza material e a perseguição, e a sua indescritível alegria comunitária — está entre aqueles para quem a Vinha de Deus é uma imagem de esperança.
No entanto, mesmo quando as questões sociais, políticas, económicas e ambientais do nosso frágil planeta começam a assumir proporções apocalípticas, sejamos pessoas cheias de esperança — não uvas da ira, mas da doçura. Na Segunda Leitura (Fil 4, 6-9), São Paulo aconselha: «Não vos inquieteis por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplica, com acção de graças, apresentai os vossos pedidos a Deus. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus». É exactamente isto que o cristão moderno precisa para continuar a ser um cacho de doçura num mundo amargo, cultivando o que é verdadeiro, honroso, justo, puro, amável, gracioso, excelente e digno de louvor.
