Na Igreja Matriz da Imaculada Conceição, em Pangim, o sexto domingo da Quaresma começa com um tom festivo. É o Domingo de Ramos, que comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém.
Após as missas da manhã, porém, há uma visível mudança no clima, especialmente com a revelação do quadro no altar-mor: uma monumental estátua de Cristo a suportar a Cruz. Daí a designação alternativa do dia, ou da sua segunda metade: Domingo da Paixão.
Domingo da Paixão
Na tarde do Domingo da Paixão vai uma procissão solene que começa e termina na icónica igreja. Este é o ponto alto dos Santos Passos, realizados nos primeiros cinco domingos da Quaresma, destacando alguns dos momentos mais intensos da Paixão de Cristo que conduzem ao Calvário: a agonia no Jardim do Getsémani, a prisão de Jesus, a flagelação em torno da coluna, a coroação de espinhos e a condenação por Pôncio Pilatos.1 Nem sempre as igrejas em Goa têm o mesmo arranjo.2
O Domingo da Paixão marca o início da Semana Santa. A cor predominante é o roxo; os altares ficam vazios e sem decorações florais. Após a missa da tarde, uma procissão conhecida como Cruz às costas — com o referido cenário de Jesus carregando a Cruz — percorre primeiro estes espaços públicos da capital: o largo da igreja; um trecho da Rua 18 de Junho e da Pissurlencar, e o Azad Maidan (antigo Largo Afonso de Albuquerque).
Os confrades vestidos de opa e murça (capa vermelha e branca) carregam a estátua em conjunto, e tem-se a impressão de que ela está a flutuar por conta própria (Figura 1). No passado, uma banda de metais acompanhava a procissão, mas actualmente um coro canta de um patamar intermediário da escadaria em ziguezague da igreja. Ouvem-se cânticos e orações ao longo do percurso por meio de altifalantes. Os fiéis passam em fila, recitando os cinco Mistérios Dolorosos do Rosário até ao final da procissão.

Figura 1. Cruz às costas (Foto: Óscar de Noronha)
Mais de dez descansos (paragens) marcam o circuito. Nesses pontos, os fiéis acorrem para beijar a estátua. Uma pausa importante ocorre na Capela da Conceição. Construída em 1823, era uma capela privada anexa ao palacete de Dom Lourenço de Noronha, um nobre português. A capela foi legada às Confrarias da Igreja de Pangim e está em reparação desde 2019.
A procissão prossegue então pelas ruas Mahatma Gandhi e Dr. Domingos Roque de Sousa, passando pelo Jardim Garcia de Orta, até ao largo da igreja. Ao pé da escadaria, Jesus encontra sua Mãe, Maria (Figura 2). Entristecida pelo seu Divino Filho ter sido tão injustamente acusado e obrigado a carregar a cruz até à morte, ela acompanha-o nos seus últimos passos, como fez no Gólgota há dois mil anos.

Figura 2. Jesus encontra sua Mãe Maria (Foto: Óscar de Noronha)
Logo depois, as duas estátuas param no patamar intermediário, em frente a uma grande cruz incrustada na parede. No nível superior, a partir de um varandim a modo de púlpito, uma menina desenrola um Véu de Verónica enquanto canta a narrativa tradicional sobre o encontro da lendária mulher com Jesus. Conforme registado na quarta estação da Via Crucis, Verónica, comovida ao ver Jesus a carregar a Cruz, enxugou a sua testa com o lenço, encontrando uma impressão duradoura do seu rosto sagrado no pano.
Assim termina o Domingo da Paixão e, na tarde da Quinta-feira Santa, começam os preparativos para o Tríduo Sagrado. A missa vespertina, com o tradicional lava-pés, celebra a instituição da Eucaristia e do sacerdócio e a proclamação do mandamento do amor. Não há procissão pública.
Sexta-feira Santa
A estrutura da procissão da Sexta-feira Santa assemelha-se à do Domingo da Paixão, ressalvadas as devidas diferenças.
O comovente cenário da Crucifixão começa no altar-mor às 3,00 h da tarde. Nessa hora, curiosamente, o céu costuma estar nublado e o clima sombrio. A liturgia da Palavra e a Eucaristia continuam até cerca das 17,30 h. A seguir, a procissão parte com a figura recostada do Senhor Morto, maior que o tamanho natural, colocada num andor (Figura 3) e acompanhada pela imagem de Nossa Senhora.

Figura 3. Procissão do Senhor Morto (Foto: Óscar de Noronha)
Desta feita, os fiéis vestem trajes fúnebres, os quais antigamente eram trajes formais. Em vez do sino Sanctus, ouve-se a matraca ou chocalho de madeira, em cada paragem da procissão.
Uma diferença importante entre a procissão do Domingo da Paixão e a da Sexta-Feira Santa está no desfecho deste evento barroco: um padre profere o Sermão da Soledade de Maria a partir do mesmo varandim que funciona como púlpito. O pregador exalta as virtudes de Maria e destaca as suas disposições interiores. Dantes, a retórica desempenhava um papel crucial nessas ocasiões, ajudando a envolver totalmente a congregação. Hoje em dia, observa-se um número limitado de fiéis ouvintes, que se distraem facilmente, sobretudo com o ruído dos veículos que, além disso, retira a solenidade do ambiente.
Espectáculo comovente
Uma semelhança marcante entre as procissões é que ambas são assistidas com admiração por pessoas de outras religiões, incluindo polícias que ficam em posição de sentido e saúdam, principalmente, o Senhor Morto.
Em ambas as ocasiões, as residências ao longo do percurso enfeitam-se com luzes decorativas, velas ou lamparinas, em homenagem a Nosso Senhor. O mesmo sucede com alguns estabelecimentos não-cristãos que, sendo dia de serviço, permanecem abertos. O caso dos Caculó e dos Neurencar, duas famílias hindus na Rua Pissurlencar, é particularmente interessante; eles tradicionalmente oferecem guirlandas de xênvtim (crisântemo) ou de abolim (crossandra).
Em ambos os dias, dependendo do número de participantes, a marcha piedosa, com um quilómetro de extensão, e as cerimónias relacionadas duram entre 75 e 90 minutos. As estátuas regressam à igreja para os rituais finais e veneração. Às 8 horas da noite, encerram-se os trabalhos!
Esses dois eventos processionais deixaram uma marca duradoura na minha mente. Foi assim quando a minha vida começou; assim é agora que sou um homem. E assim será quando eu envelhecer — pois essa tradição antiga é, sem dúvida, um dos espectáculos mais comoventes do calendário religioso e cultural da minha cidade, Pangim.
Publicado na Revista da Casa de Goa, Serie II, No. 39, marco-abril de 2026, pp 43-47
Notas: Veja-se também
https://www.oscardenoronha.com/2019/03/17/santos-passos-in-panjim/
https://www.oscardenoronha.com/2021/03/21/lenten-traditions-in-goa/
https://studio.youtube.com/video/XaVO6nY2ASQ/edit
https://www.youtube.com/watch?v=sXlnAoKU42M&t=17s